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O que é um cartel?

Como nasce um cartel?

 

No contexto da psicanálise lacaniana, o cartel é um dispositivo formal de trabalho em pequeno grupo, concebido por Jacques Lacan como eixo estrutural de sua proposta de formação do analista, especialmente a partir da fundação da Escola Freudiana de Paris (1964).


Um cartel nasce como uma proposta de trabalho uma vez que alguém se dispõe a levantar um tema, em torno do qual se reunirá um grupo interessado.​​ A proposta é divulgada em meio a uma cadeia circular de outros cartéis sendo esse o  principal propósito da Rede Lacaniana.

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Como se forma o grupo do cartel?

O grupo vai se formando na medida em que surgem inscrições para aquele cartel (respeitando-se a configuração do numero mínimo, ideal ou máximo de membros contando-se também com a eleição do grupo do integrante “mais-um”).  Aqueles que serão os componentes devem ter se escolhido em torno de um assunto (tema) de interesse comum, a partir do qual cada um recorta sua própria questão.

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Quantos são os integrantes do cartel?

As configurações quanto ao número de participantes são:

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Configuração mínima: 3 integrantes + 1

Configuração ideal: 4 integrantes + 1

Configuração máxima: 5 integrantes +1

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Uma vez iniciado o cartel não comporta aceitação de nenhum novo membro, e a desistência de qualquer um deles em qualquer momento, deverá fazer o cartel se dissolver instantaneamente.

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Quem organiza os encontros?

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É de responsabilidade dos membros dos cartéis o acordo e a organização do trabalho quanto à periodicidade, a forma (virtual e/ou presencial) e a plataforma/local dos encontros. A Rede Lacaniana, colabora nessa formação se mantendo como lugar de articulação do interesse e vitrine de produção.

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O que se espera do final do cartel?

No encerramento do cartel, uma produção escrita individual de cada membro deve ser organizada, compartilhada e divulgada à comunidade psicanalítica mais ampla (O envio dessas produções para a Rede Lacaniana é de responsabilidade daquele que foi eleito como o (+1) do grupo (A divulgação será feita via os Catálogos dos cartéis da Rede Lacaniana).

Quanto tempo dura um cartel?

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Ao final de 1 ano, o cartel é finalizado ou estendido por mais 1 ano. Após esse período o grupo deve se dissolver, para assim se anular qualquer ordem de preferência e se instaurar uma lei de permutação.

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“Após um certo tempo de funcionamento, os componentes de um grupo verão ser-lhes proposta a permuta para outro”. (Jacques Lacan: Ato de fundação Da Escola Freudiana de Paris, 1964 – Outros escritos)

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Qual é a Função do +1?

​O mais-um não é:​ professor, coordenador pedagógico, supervisor, líder do grupo nem garantidor do saber

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Se o mais-um ensina, o cartel já virou grupo de estudos.​ O mais-um não ocupa o lugar do saber, ele ocupa o lugar da função. A função do (+1) é a de operar contra a formação de um grupo imaginário e a favor do trabalho singular. Ele está ali para: evitar a homogeneização, relançar o trabalho quando ele se fecha, sustentar o cartel como dispositivo, não como simples reunião.

 

Quais as qualidades necessárias para ser +1?


O mais-um precisa ser capaz de tolerar o desencontro, não apaziguar conflitos com psicologia, não buscar harmonia grupal, já que o cartel não é um espaço de conforto. O mais-um deve estar atento a: quando alguém fala “em geral”, quando alguém comenta o texto sem implicação, quando alguém ocupa o lugar de aluno exemplar.

Como geralmente o +1 intervém no cartel?

Ele deve intervir a partir de uma boa compreensão da sua função, muitas vezes isso leva a produzir perguntas simples, mas decisivas para a reunião: “O que disso toca a sua questão?”, “Onde isso aparece no seu trabalho?” “O que você está produzindo a partir disso?". O mais-um não garante nada, ele precisa sustentar: que não há promessa, que não há reconhecimento, que não há avaliação. O trabalho pode não dar em nada. E isso também é um destino possível para os cartéis. É fundamental que o Mais-Um saiba Resistir ao lugar de mestre, principalmente quando o mais-um: sabe mais, lê mais, fala melhor e percebe que surge a tentação de explicar, esclarecer, completar. 

O mais-um deve saber não ocupar o lugar que lhe é oferecido. O mais-um deve suportar comparecer em uma posição que: não recebe reconhecimento, não recebe agradecimento, muitas vezes é visto como “chato” ou “inibidor”. Se ele busca amor, o cartel vira grupo. Se busca reconhecimento, vira liderança. Cabe por fim, ao (+1), Sustentar o tempo de dissolução: sustentar que o cartel acaba, favorecer a dispersão, não prolongar artificialmente o dispositivo, exercer a função de corte.

Como lidar com a transferência durante o cartel?

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No cartel, cada participante entra a partir de uma questão própria. Essa questão não é um tema de estudo previamente validado, nem um recorte teórico escolhido por critérios externos. Ela se autoriza unicamente do sujeito que a sustenta e se legitima apenas pelos efeitos de trabalho que produz ao longo do cartel.​ Não há, portanto, uma instância que aprove ou rejeite as questões apresentadas. O cartel não funciona segundo a lógica da avaliação, da pertinência acadêmica ou da garantia de resultados. Uma questão pode se mostrar fecunda, deslocar-se, transformar-se ou até cair. Isso faz parte do dispositivo. O que importa não é sua formulação inicial, mas o modo como ela convoca o trabalho e implica quem a sustenta.

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Esse funcionamento tem relação direta com a transferência, que está presente no cartel, mas de maneira específica. Diferentemente da análise, a transferência no cartel não se concentra em um único lugar e não se apoia em um Outro. Ela se dirige sobretudo ao dispositivo, à causa do trabalho e à própria questão de cada um, sendo necessariamente frágil e instável.

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É por isso que a saída de um participante pode levar à dissolução imediata do cartel. O cartel não é um grupo que continua apesar das ausências; sua configuração mínima é estrutural. Quando um membro se retira, não se trata apenas de uma falta numérica, mas de uma ruptura no laço que sustentava o trabalho. Nesses casos, cabe reconhecer o efeito produzido e decidir, eticamente, pela dissolução.​ Essa fragilidade transferencial não é um defeito do cartel. Ao contrário, é o que impede sua cristalização como grupo estável, sua transformação em espaço de pertencimento ou em dispositivo de ensino. O cartel existe justamente na medida em que não oferece garantias, nem de saber, nem de continuidade, nem de reconhecimento.​ Assim, aprender sobre o cartel implica também aprender a sustentar essa precariedade: a da questão, que não se legitima antecipadamente, e a da transferência, que pode cair e, ao cair, concluir o trabalho.

Pedro Sá psicanalista
Pedro Sá psicanalista

"Sempre digo a verdade: não toda, porque dizê-la toda não se consegue. Dizê-la toda é impossível, materialmente: faltam palavras. É por esse impossível, inclusive, que a verdade tem a ver com o real".

(Jacques Lacan - Televisão 1974)

Pedro Sá psicanalista
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