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O Altar e o Projétil: Afânise e Sacrifício na Clínica do Gozo
Por Adriane Oliveira

O presente ensaio articula a dimensão sacrificial na experiência analítica de orientação lacaniana, tomando O Sacrifício de Isaac (1603), de Caravaggio, como eixo hermenêutico da angústia e da afânise. Examina-se a economia neurótica como resposta à suposição de uma demanda do Outro, situando o sacrifício como cenário fantasmático sustentado pela reiteração da perda. A partir da antinomia do desejo e da função da voz, conforme desenvolvidas por Jacques Lacan e Jacques-Alain Miller, busca-se localizar a saída analítica no deslocamento dessa engrenagem. O percurso culmina na destituição de um Outro consistente e na assunção de uma responsabilidade pelo próprio gozo.

 

Palavras-chave: psicanálise; sacrifício; afânise; gozo; voz; Outro.

 

1. Onde dói a imagem

 

Não se ingressa na clínica de orientação lacaniana sem atravessar a dimensão trágica — e a torção que nela se torna possível. Na neurose, o trágico não se encerra em circuito: persiste um resto irredutível à significação.

O quadro O Sacrifício de Isaac, de Caravaggio, funciona como operador privilegiado para a leitura da angústia. O pescoço exposto, o gesto suspenso do pai, o olhar de Isaac — tudo converge para uma tensão decisiva. Mais do que um traço expressivo, esse olhar condensa o ponto em que o sujeito é capturado pela escopia do Outro. Já não se trata de ver, mas de ocupar o lugar de objeto sob esse olhar. É aí que a angústia irrompe: quando se é reduzido àquilo que responde ao desejo do Outro.

Como formaliza Jacques Lacan no Seminário 10, o olhar, enquanto objeto a, não se confunde com a visão; ele marca o ponto de captura em que se perde o domínio da cena. Isaac, imobilizado, não apenas interroga — encontra-se já implicado como resposta. A pergunta Che vuoi? adquire, assim, seu valor máximo: menos como pergunta do que como experiência de captura pelo olhar do Outro, diante do qual o sujeito vacila em sua afânise.

Tem-se, então, uma montagem que evidencia o preço da subjetividade. A afânise não concerne ao desaparecimento do desejo, mas ao eclipse do sujeito que, ao tentar coincidir com o objeto que falta ao Outro, se apaga. O sacrifício surge, nesse contexto, como tentativa de dar consistência ao desejo do Outro — não sem extrair um ganho de gozo desse próprio apagamento.

2. A agiotagem do Outro

A entrada na linguagem custa ao parlêtre uma “libra de carne” (Lacan, Seminário 14). Perde-se algo do corpo vivo para que um nome possa advir. No entanto, a clínica testemunha uma insistência: como se esse corte inaugural não bastasse, o sujeito se engaja em uma reiteração da perda.

Instala-se, assim, uma espécie de agiotagem do Outro: uma economia paradoxal na qual se paga reiteradamente uma dívida já inscrita na estrutura. Tal operação funciona como defesa frente ao vazio que a própria perda deveria indicar.

O caso do Homem dos Ratos, de Sigmund Freud, fornece o paradigma dessa lógica obsessiva: seus rituais operam como tentativas de saldar uma dívida impossível, mantendo o Outro em funcionamento. Do lado da histeria, como se observa, por exemplo, no caso Dora, o pagamento assume outra forma: um excesso de implicação subjetiva pelo qual o sujeito se oferece para sustentar a falta no Outro e, assim, causar o desejo.

Tal como na cena de Abraão, não se sacrifica apenas o mais precioso; eleva-se a oferta à condição de resposta ao enigma do Outro. O sujeito se apresenta como objeto, sustentando um arranjo em que o gozo encontra lugar na própria repetição do pagamento.

 

 

3. Sacrifício e fantasia

É nesse ponto que a formalização da fantasia ($ ◊ a) permite situar a função do sacrifício: não apenas se oferece algo ao Outro, mas se ocupa o lugar de objeto causa de desejo. O sacrifício não responde a uma demanda efetiva; sustenta, antes, uma cena em que o Outro é suposto desejar — e suposto gozar.

A leitura de Jacques-Alain Miller permite precisar esse impasse entre a via do amor, que recobre a falta, e a da angústia, que não engana. O neurótico se mantém nessa tensão, preferindo a consistência de um Outro que demanda à confrontação com sua inconsistência radical.

É nesse ponto que se formula a interrogação — O que o Outro quer de mim para me privar da Coisa? — que sustenta a cena fantasmática. Supõe-se uma vontade no Outro para evitar o encontro com o vazio — e, com ele, com o próprio gozo.

 

 

4. A voz como corte

No quadro de Caravaggio, há um anteparo. O anjo não é apenas figura: é suporte da voz. “O que detém o braço de Abraão? É a voz” (Lacan, 2005).

A voz, tal como formalizada por Jacques Lacan, não se reduz ao enunciado nem ao sentido. Ela opera como objeto a: uma extimidade que incide como causa. Evocada pelo shofar, é uma voz que não comunica, mas convoca. Sua incidência não orienta por um saber; introduz um corte real que descompleta o circuito do gozo.

Ao interromper o sacrifício, a voz não salva Isaac: produz uma hiância. Reintroduz a divisão ao operar uma separação entre o sujeito e o lugar de objeto ao qual se via destinado. Se a angústia emerge quando essa distância se reduz, a voz reinstaura um intervalo — não como garantia, mas como possibilidade.

É nesse hiato que se situa a função do analista: não impedir o ato, nem ocupar o lugar de um Outro que saberia, mas sustentar o ponto em que ele pode não se completar, permitindo um deslocamento em relação à captura fantasmática.

 

 

5. O silêncio da voz e a queda de Henriette

O que ocorre quando essa voz não intervém?

O caso de Henriette Caillaux, retomado por Jacques Lacan, permite circunscrever esse ponto. O sujeito se vê exposto ao olhar do Outro sem mediação simbólica. Após a exposição pública de sua intimidade, Henriette dispara contra o editor do Le Figaro.

Não se trata de uma mensagem dirigida ao Outro, mas de uma passagem ao ato. Enquanto o acting out ainda se sustenta como apelo, aqui não há mais cena a manter.

O que se produz não é uma resposta, mas uma saída fora da cena. O sujeito não mais se representa — precipita-se. Já não sustenta a posição que o organizava: não fala, não mostra — cai.

 

 

6. Descer do altar

 

A neurose sustenta-se na lógica de uma dívida. O fim de análise não a resolve, mas a desloca: opera a queda da suposição de um Outro consistente. Partindo da premissa de Jacques Lacan — 'não há Outro do Outro' —, o sacrifício revela-se como uma montagem feita 'em nome do vazio'.

Jacques-Alain Miller observa que esse ponto pode tocar o cômico: descobre-se que o mestre ao qual se pagava era, afinal — por assim dizer — um 'mestre de barro'.

Descer do altar é um ato ético: cessar de oferecer o próprio ser como resposta ao que se supunha faltar ao Outro. A interrogação perde sua função — ao se esvaziar.

Abre-se, então, a possibilidade de não mais pagar — nem com o corpo, nem com o sangue. O que sobra é um uso do objeto $a$: inventar um saber-fazer com o sinthoma, esse resto que insiste, para além de qualquer garantia sacrificial.

Referências:
 

FREUD, Sigmund. Fragmento da análise de um caso de histeria (Dora) (1905). São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
FREUD, Sigmund. Observações sobre um caso de neurose obsessiva (O Homem dos Ratos) (1909). São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 10: a angústia (1962–1963). Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 14: a lógica do fantasma (1966–1967). Inédito.
MILLER, Jacques-Alain. Introdução à leitura do Seminário 10 de Lacan: a angústia. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
MILLER, Jacques-Alain. Perspectivas do Seminário 23 de Lacan: o sinthoma. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.

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Adriane Oliveira

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Pedro Sá psicanalista
Pedro Sá psicanalista

"Sempre digo a verdade: não toda, porque dizê-la toda não se consegue. Dizê-la toda é impossível, materialmente: faltam palavras. É por esse impossível, inclusive, que a verdade tem a ver com o real".

(Jacques Lacan - Televisão 1974)

Pedro Sá psicanalista
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